O impacto do espacamento do jovem negro até a morte sobre a imagem do país no exterior é enorme. Muitos veículos deram ampla cobertura ao episódio trágico, destacando o velho problema nacional do racismo e, agora, da xenofobia latente. Na CNN, reportagem destacou a onda de indignação provocada pela morte de Moïse no país. “O assassinato de Kabagambe desencadeou uma campanha nas redes sociais, onde muitos brasileiros — incluindo celebridades locais — estão pedindo por justiça”, aponta a emissora estadunidense. O material ainda relacionou diretamente o caso ao racismo: “A discriminação racial continua presente em muitas partes do Brasil, onde afro-brasileiros são frequentemente alvos de ataques por motivos raciais”.

O jornal americano Washington Post escutou especialistas que argumentam que o racismo e o aumento na violência contra grupos que sofreram opressão histórica no Brasil estão diretamente relacionados ao assassinato. “Mesmo em um país acostumado com episódios aleatórios de extrema violência, a selvageria do espancamento deixou muitos brasileiros chocados e sem respostas”, diz a reportagem do correspondente Terrence McCoy, que vive no Rio.

A jornal norte-americano afirma ainda que o assassinato reflete a onda de violência que atinge as praias do Rio de Janeiro todos os verões, quando são frequentes os arrastões e muitos dos roubos terminam em agressões. “Em reportagem publicada na segunda-feira, o jornal O Globo contou 12 atos violentos de multidões contra indivíduos nas praias”.

A Voice of America (VOA) apontou em reportagem que a morte do congolês provocou “protestos e debate sobre xenofobia” no país. O britânico Daily Mail anunciou o protesto que aconteceu no sábado, em frente ao quiosque onde Moïse trabalhava na Barra da Tijuca. O jornal também cita as notas de repúdio emitidas por organizações de direitos humanos nacionais e internacionais.

“A Human Rights Watch disse que o assassinato violento de Kabagambe ‘merece o mais absoluto repúdio da sociedade brasileira’, pois ocorre em um contexto de aumento da violência contra os negros no Brasil”, diz o jornal. “A embaixada da República Democrática do Congo pediu uma investigação minuciosa e afirmou que este foi o quinto assassinato de um imigrante congolês no Brasil desde 2019”.

Na Alemanha, o jornal Sueddeutsche Zeitung destacou a “ironia cruel” presente na história de Moïse, que fugiu da violência de seu país mas acabou vítima de agressão no Brasil. O periódico faz fortes críticas ao racismo generalizado no Brasil, a última nação do hemisfério ocidental a abolir a escravidão.

“Assassinatos semelhantes são uma triste parte da vida cotidiana no Brasil e especialmente no Rio. Em média, uma pessoa é morta a cada dez minutos no maior país da América do Sul, e o derramamento de sangue quase não chama a atenção, especialmente quando — como no caso de Moïse Kabagambe — um jovem negro é a vítima”, diz o texto.

No Oriente Médio, a emissora Al Jazeera destacou os “pedidos por justiça” que se seguiram à morte do congolês. “O assassinato provocou indignação em todo o Brasil, onde muitos pediram um acerto de contas sobre como os refugiados e requerentes de asilo são tratados no país”, aponta a emissora do Catar. •

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