A formação das nações e a geopolítica mundial sofreram uma série de alterações ao longo do século 20 após duas guerras mundiais, o processo de descolonização na Ásia e na África e o fim da Guerra Fria. Esta última fase tem como fatos marcantes o desmantelamento da União Soviética e da Iugoslávia, o fim do regime do apartheid na África do Sul, a ascensão econômica e política da China e a expansão da União Europeia, principalmente, em direção ao Leste Europeu e aos Bálcãs. No entanto, as acomodações geopolíticas iniciadas há quase 25 anos ainda não se concluíram, conforme mostram a chamada Primavera Árabe, a ascensão de governos de esquerda na América Latina e os novos processos de integração no continente, bem como os recentes episódios ocorridos na Ucrânia. Parte-se de uma divisão bipolar de poder, entre EUA e URSS, para uma nova situação multipolar, em que outras potências também ascendem a partir do nível regional, como as já mencionadas União Europeia, China e África do Sul, bem como Japão, Índia, Rússia e Brasil, entre outros países de maior ou menor expressão.

A Rússia atual é um caso particular nesse quadro, pois os impactos que sofreu com o fim do regime do socialismo real e a implantação do capitalismo sugeriam, ao contrário do que ocorreu, que o país dificilmente se restabeleceria como uma potência no curto prazo. A mídia internacional apresenta a Rússia de hoje e o governo de Vladimir Putin como agressores e expansionistas, principalmente depois da recente anexação da Crimeia ao território russo, mas na realidade a posição russa ainda é defensiva diante da expansão patrocinada pelos Estados Unidos e pelas potências europeias em direção ao Leste Europeu e ao Oriente Médio, por meio dos instrumentos que dominam, como a Otan, a União Europeia e o FMI, entre outros. Após a queda do Muro de Berlim, os russos perderam sua influência sobre o conjunto dos países do Leste Europeu que ingressou na União Europeia e na Otan, perderam um aliado importante nos Bálcãs com a derrota da Sérvia frente à ofensiva da Otan que viabilizou a independência do Kosovo, retiraram-se de Cuba e de vários países africanos e o único aliado que lhes resta no Oriente Médio é a Síria.

É compreensível, portanto, que a Rússia busque preservar posições diante da ofensiva dos norte-americanos e de seus aliados que tentam conter o próprio declínio relativo diante da ascensão da multipolaridade com uma política cada vez mais agressiva. Analisando vários episódios recentes, já se desenha um modelo de intervenção que sustenta essa ofensiva por meio de várias fases que visam derrubar governos hostis ou não confiáveis aos seus interesses. Primeiro, utiliza-se uma série de manifestações que surgem a partir de reivindicações geralmente legítimas, como os protestos contra governos autocráticos no norte da África e no Oriente Médio ou contra governos ineptos e corruptos, como o da Ucrânia, por meio do movimento Maidan (nome da praça central de Kiev), que reunia inclusive setores de esquerda.

Já no caso venezuelano, as manifestações começaram em função do desabastecimento provocado pelo setor empresarial devido às suas divergências com o governo Maduro no campo econômico, o que “fabricou” uma causa.

Em seguida, introduz-se o elemento violência nas manifestações, para que ocorram repressão e mortes para gerar maior comoção. Os atores, nesse caso, são grupos de extrema direita, como se vê na Ucrânia e na Venezuela, e neste também agem franco-atiradores a serviço da oposição ao governo. Na Líbia e na Síria, os encarregados de enfrentar o governo por meio das armas foram grupos de fundamentalistas islâmicos, muitos deles ligados à Al-Qaeda. Quando essa tática está em marcha, a mídia local e internacional atuam para transformar a minoria em maioria, como se a demanda pela derrubada do governo, manifestada inclusive pela violência nas ruas, fosse o desejo do conjunto da população.

Por fim, quando a situação está madura e o governo em questão suficientemente desgastado, vem a intervenção de alguma instituição em que a oposição tem influência, como Parlamento, Poder Judiciário ou Forças Armadas, para destituí-lo. Na ausência deles, pode ocorrer a intervenção externa, como na Líbia, para derrubar o governo Kadaffi. Na Ucrânia, foi o Parlamento que votou o impeachment do presidente Yanukovych. Os golpes de Honduras e Paraguai não contaram com a fase das mobilizações, pois não havia motivo que pudesse provocá-las na ocasião, mas o restante do roteiro foi seguido. Apesar da legitimidade de manifestações populares e do questionamento dos respectivos governos, os desdobramentos nos exemplos mencionados não têm absolutamente nada de legítimo e muito menos de democrático.

Diante disso, quando o governo Obama e seus aliados da Otan ameaçaram intervir na Síria, a Rússia se posicionou firmemente contra essa possibilidade, não apenas no Conselho de Segurança da ONU, mas também deixando clara sua intenção de ajudar os sírios a repelir qualquer ataque externo, pois, entre várias razões, a queda do governo sírio implicaria perder sua única base naval no Mediterrâneo.

No caso ucraniano, a mudança de governo com a ascensão dos oligarcas pró-União Europeia bloquearia, mais cedo ou mais tarde, o acesso russo ao Mar Negro por meio dos portos na Crimeia, principalmente o de Sevastopol, e consequentemente ao Mediterrâneo. A tática russa é a de “recuar atirando”, pois quando a influência norte-americana e europeia chegou próximo a suas fronteiras na tentativa de incluir a Georgia na Otan, em 2008, duas províncias deste país declararam independência. Esta foi reconhecida pela Rússia, mas na prática houve um rompimento com o restante da Geórgia, embora ao final o país não tenha sido incluído na Otan.

A questão ucraniana tem um peso maior pelos laços históricos do país com a Rússia, com a qual uma larga proporção de sua população se identifica etnicamente, linguisticamente e culturalmente. A expansão do movimento Maidan, nos termos descritos anteriormente, acabou gerando uma polarização entre os nacionalistas ucranianos com potencial para serem cooptados pelo Ocidente e a população mais pró-Rússia, havendo inclusive a possibilidade da deflagração de uma guerra civil, estimulada, particularmente, pelos grupos neonazistas que atuaram na derrubada do governo Yanukovych e, no atual governo provisório da Ucrânia, assumiram os Ministérios da Defesa e da Segurança.

A Crimeia representa uma situação especial nesse contexto, pois era parte do território russo no âmbito da URSS até a década de 1950, quando o então primeiro-ministro Nikita Khrushchev, um ucraniano, a incorporou à Ucrânia. Com a mudança do governo ucraniano, a população da Crimeia decidiu, em referendo, pela sua reincorporação à Rússia e praticamente toda a Marinha ucraniana com base na península também se incorporou à Marinha russa. Por mais apressado que tenha sido esse processo eleitoral, não há dúvida de que o resultado representou a vontade desse povo. Não reconhecê-lo seria como não reconhecer o direito dos escoceses à sua independência da Inglaterra (aliás, uma demanda antiquíssima) se assim se manifestar a maioria da população da Escócia. O movimento seguinte foi a aceitação da anexação da Crimeia à Rússia pelas suas instituições políticas, mas a contrapartida é seu distanciamento da Ucrânia. Não parece haver nenhum expansionismo nisso.

A reação norte-americana e europeia, depois de muita retórica, foi “excluir” a Rússia das reuniões do G-8, o que não representa nenhum impacto, e sancionar a proibição a determinadas personalidades russas de viajar para os EUA, o que foi prontamente respondido na mesma moeda. Aliás, um representante da BGA – associação empresarial alemã – declarou que o rompimento de laços econômicos da Alemanha com a Rússia causaria grandes prejuízos a mais de 8 mil empresas alemães. Portanto, não virá nada de mais sério deste front.

Já o novo governo ucraniano e a parte da população que o apóia vão sentir rapidamente o que significa aliar-se ao Ocidente nos dias de hoje. A Ucrânia acabou de fechar um acordo com o FMI para receber um empréstimo de US$ 18 bilhões, sob a condição de implementar um duríssimo ajuste estrutural. Ou seja, as mobilizações têm motivo para prosseguir.

 

Kjeld Jakobsen é consultor em Relações Internacionais