A tarefa da memória histórica é difícil.

Tem de insistir, navegar, revisitar o passado.

23 de novembro de 1970. Olhos vendados. Salão com o chão forrado por lona de caminhão marrom-claro onde o capitão Hemetério Chaves Filho lutava karatê junto com os irmãos Denilson e Dalmar Caribé. Quartel do Barbalho centenário. Preso no final da manhã no bairro da Ribeira Salvador Bahia já espancado sentindo o gosto de sangue na boca. Passado pela Polícia Federal sob o comando do coronel Luiz Arthur de Carvalho. Avisado de que iria pro pau expressão do coronel complementada com seu filho da puta melhor ser filho da outra.

Os monstros voltam, e querem revogar tudo, rever, negar, retocar.

Querem apagar o rastro de sangue.

Nem limpar o sangue admitem – não existiu sangue, não houve torturas inomináveis, não houve assassinatos, não houve desaparecimentos, crianças não foram torturadas, mulheres não foram violadas, estupradas, atingidas no mais sensível de seus corpos e de suas almas, nem se suicidaram.

Imaginação dos terroristas, tudo limpo.

Você se retesa todo mal respira enxerga o mundo pela fresta da venda sabe da tortura a seguir. Não sabe qual imagina. Solidão. Só há você ninguém a socorrê-lo. Cercado de inimigos. Querem sua alma. Vão testar esfolar seu corpo jovem 24 anos. Não há meio de escapar. Está defronte deles tem que enfrentá-los. Não pode fraquejar. Se vacilar companheiros pagarão o preço. Uma tensão quase insuportável. Torce parece loucura mas é verdade: torce para que venham buscá-lo logo. Verá a cara dos monstros saberá a natureza deles melhor comece o mais rapidamente o embate inevitável. Talvez a violência dissipe o medo. Que viesse. Angustiante era aquela espera. A noite chegou e com ela os torcionários.

E você mergulha no tempo, é compelido a isso, não obstante não lhe seja fácil. Compelido porque o presidente da República fala em comemorar a ditadura. Obrigatório expor os crimes, as violências, contar de novo. Necessário tocar as feridas, sentir o sangue brotar, ainda, porque as feridas não se fecham. Estão ali ainda, em nossos corpos, em nossas almas, e o sangue quando brota novamente ferve de indignação.

Me levantam já com violência. Me levam me guiam segurando os braços. Enxergo o chão pela fresta. Um louco alívio – bem o jogo está começando de verdade vou saber o quanto aguento se consigo resistir. Estava determinado a não falar estava. Mas aguentaria? Todos nós certamente tínhamos essa dúvida ao começar o pau. E começou. No início da subida em direção à sala do comando havia um comitê de recepção muito violento. Pancada de toda natureza murros pontapés a barra de ferro descia sem dó no corpo nu. Haviam tirado toda minha roupa. Acreditam desmontar o preso com isso. A mim isso pouco se me dava. Muita muita muita porrada. Ouço o barulho de um objeto pesado sendo arrastado tampa de um poço d’água. Até ali minha determinação não mudara: não dizer nada, não entregar ninguém. Eu me repetia isso o tempo todo a querer firmar convicção.

Costumo dizer: todos nós fomos obrigados a construir uma couraça, a mais forte possível. Com ela, cobrir nossos corpos, nossa alma, não vacilar, não fraquejar diante do inimigo, esconder se pudermos nossas debilidades, mostrar força, ignorar fraquezas. Era uma armadura. Necessária para os duros combates.

Não paravam o massacre. Digo com tranquilidadese era só aquilo eu morreria e não falava. Dava pra aguentar. Seguro de mim. Ia seguindo era como fosse sempre digo isso uma corrida de obstáculos. Não parariam aí sabia. Meu corpo frangalhos. Do barulho da tampa se seguiu me agarrarem pelas pernas e me jogarem de cabeça pra baixo no poço d’água afogamento engolindo água pra burro pensava enquanto sofria não vão me matar ainda e repetiam furiosamente a operação eu saía no limite já me afogando muitas vezes o corpo jogado dentro e depois devolvido ao paralelepípedo bruscamente a me ferir mais e mais ferimentos não me atordoavam o corpo parecia pronto praquilo tudo pra porrada brava. Torcia sempre torci na tortura para desmaiar sair do mundo a morte não tem importância mas nada o corpo suportava toda a violência eu sempre consciente nada de um desmaio, um apagão. O que vem mais? A cabeça rodava. Minha corrida de obstáculos…

É, teríamos sob o terror, sermos mulheres e homens de ferro que não éramos, não podíamos ser, embora tentássemos, e no fogo da batalha éramos, tínhamos de ser que a luta não era para fracos. Esse esforço sobre-humano cobrará preço sem que percebêssemos fosse herança daquele período. É a luta de classes se abatendo sobre os corpos e sobre os espíritos.

Me arrastam pelos paralepípedos. Sou jogado no chão da sala do comando. À frente da tortura quase alegres um sadismo evidente nas atitudes do capitão Hemetério Chaves Filho raiva do capitão Gildo Ribeiro me obrigam a dobrar as pernas amarram-nas e entre elas enfiam um cano de ferro me levantam. Apresentado ao pau de arara. O corpo percebeu era outro mundo bem pior a vida de cabeça pra baixo. Os palavrões como eles gostam de xingar eu me perguntando se suportaria e nem dá pra explicar o grau de sofrimento tortura indizível não obstante o esforço para traduzi-la em palavras. Desaparece a noção do tempo sabe da dor as dores trazidas pelo pau de arara parecem infinitas e o que querem é causar dor fazer sofrer há prazer nisso. Eu que porra não desmaiava não sumia não morria. Insisto ninguém deve dizer tortura é desumana. É demasiadamente humana só os humanos torturam. Talvez devamos procurar explicações em Freud se a noção da luta de classes não bastar… Estamos vendo hoje o ódio a nos acossar a vontade de matar o elogio da tortura não são simples reminiscências.

Nossa couraça permitiu que muitos não caíssem, não fossem arrastados para o corredor da morte, da tortura, do desaparecimento, não tivessem o sangue jogado no cimento frio das celas fétidas, não fossem levados ao terror do choque elétrico, do pau de arara, do afogamento.

Conheci o pau de arara. Depois de não sei quanto tempo me desceram da geringonça. Levei um baita susto não sentia as pernas. Me colocaram na maca o corpo destroçado a mente desperta sensação de estar vencendo a corrida de obstáculos algum alívio sendo carregado naquela maca e subitamente me arrancam a venda e perguntam a Theodomiro você conhece? Theo olha diz não com a certeza de que eu estava morto tal minha imobilidade tal o estado de meu corpo todo arroxeado de tanta pancada. Paulo Pontes responde a mesma coisa os dois serão meus companheiros de prisão por quatro anos. Passarão quase nove anos presos. Theo foi o primeiro condenado à morte pela ditadura. Esteve sempre na luta. Está se restabelecendo hoje de um violento AVC hemorrágico. Paulo Pontes convive com um câncer de próstata há 15 anos superando metástases. Esteve está na luta pela liberdade.

Não podíamos falar sob a tortura, de modo nenhum – como se isso fosse simples.

E muitos dos nossos falaram, sem significar que tivessem se entregue ao inimigo.

Jogado no chão frio da cela noite maldormida pesadelos conseguia escapar casa de Pedroso saía por detrás pensava em tudo pra fugir naquele sono que vinha e não vinha em meio àquele quase delírio vem a manhã café preto com pão bebo e como sem sentir nada de tanta porrada deito novamente no chão expectativa de voltar à tortura. Logo início da tarde voltam abrem a cela me carregam para a sala do comando novamente pau de arara eu pensando eu aguento sem saber viria coisa pior. Choque elétrico era o pior de tudo o corpo se convulsiona um fio no pênis outro na orelha outro circulando inferno desci aos infernos o pior naquela corrida de obstáculos e eu insistindo em nada falar e nada falar significava não dar nenhum endereço não revelar nenhum nome e manter o nome frio Pedro Luiz Vian identidade da clandestinidade. Os choques a gente tenta definir e não consegue sempre o indizível. Durante um ano talvez um pouco menos já cumprindo pena na Lemos Brito sentia um raio me atravessar o corpo durante o sono uma dor fina cortante acordava ela sumia. Quantas horas nesse suplício do choque não perguntem. Quando me baixam do pau de arara quando me colocam na maca uma sensação de vitória louca voltei com ela para a cela todo arrebentado inteiro por dentro certo de que voltaria no dia seguinte pro pau mas voltaria mais forte pronto a continuar vencendo a corrida de obstáculos…

A couraça às vezes se rompia, não éramos de ferro.

E quando lhe dizem nada ocorreu as feridas se abrem, e sangram mais e mais.

Mas o sangue não arrefece o espírito.

Febre aquela noite queimei de febre os torturadores ficaram preocupados não queriam morte ali e me deram medicamentos e eu não voltei pro pau. Tentaram me dobrar com uma infiltração policial federal trazido como preso político querendo meu endereço iria sair logo era seu argumento poderia ajudar dei o já conhecido de meus pais em São Paulo e depois fomos saber da condição dele. Vieram interrogatórios do Cenimar sem tortura, e depois levado para a Penitenciária Lemos Brito onde cumpri quatro anos de prisão. Saí no final de 1974 em liberdade condicional.

Debaixo da couraça há uma mulher, um homem, há lágrimas, sofrimento, que são fracos e fortes, natureza humana.

Quanta dignidade e força nessa natureza, não obstante a fraqueza – a conviver sempre com a coragem, a lealdade aos princípios e aos companheiros, aos ideais da luta.

Nunca poderemos esquecer: por nossa lealdade à luta, porque não podemos permitir que a ditadura seja ignorada, por nunca perdoar tantos crimes, por sermos leais aos nossos mortos, aos tantos que tombaram ao longo da caminhada e que deixaram sonhos semeados que nós temos a obrigação de fazê-los florescer para sermos dignos deles.

Bolsonaro passará à história como um dos que pretenderam celebrar a morte, a tortura, o desaparecimento de pessoas, celebrar a mais cruel das ditaduras experimentadas pelo Brasil.

Passa: a ditadura passou, e esse pensamento conservador-reacionário-revisionista atual também passará, será derrotado como o fizemos com a ditadura militar.

Uma porção de Quintana:

Todos esses que aí estão

Atravancando meu caminho,

Eles passarão…

Eu passarinho!

A luta pela liberdade, pela democracia, nunca cessa.

Estamos aqui.

Vivos, dispostos à luta, vendo novas gerações se pondo à frente das batalhas.

Nós não cansaremos de dizer:

Ditadura nunca mais!

Democracia sempre!

Emiliano José é jornalista e escritor, autor de Lamarca: O Capitão da Guerrilha com Oldack de Miranda, Carlos Marighella: O Inimigo Número Um da Ditadura Militar, Waldir Pires – Biografia (v. I), entre outros