A desindustrialização está em curso não apenas no Brasil, mas na maior parte do mundo. Esse processo decorre da radicalização da concorrência internacional devido à redução do ritmo de consumo dos países desenvolvidos; à elevação da liquidez internacional promovida pelos bancos centrais dos países desenvolvidos para salvar seu sistema bancário; e à realocação da produção chinesa em direção às economias emergentes.

Em consequência, há superoferta de bens e serviços e os preços internacionais se encontram estagnados ou cadentes.
As empresas sediadas no Brasil têm dificuldades para enfrentar a concorrência externa. Além de problemas com produtividade, enfrentam o chamado custo Brasil (infraestrutura deficiente, elevada carga tributária, taxa de juro alta, burocracia excessiva).

Tentando minimizar os efeitos desse tsunami de bens e serviços importados, o governo acabou de lançar o segundo pacote de estímulos à indústria, com medidas mais fortes que o primeiro, o Plano Brasil Maior, posto em marcha em agosto de 2011.

Trata-se de um conjunto de medidas de estímulo à competitividade que envolve desonerações fiscais, crédito mais abundante, proteção contra o produto importado, medidas cambiais e preferência nas compras governamentais às empresas sediadas no país.

Todas são boas para estimular alguns setores selecionados pelo governo, mas estão aquém da necessidade para a retomada firme da industrialização no país. Resta reduzir de forma mais rápida e profunda o custo Brasil e criar estímulos mais fortes para a reindustrialização.

Mas as propostas para essa redução têm variado. Alguns acham que o principal é fazer a desvalorização do real, outros apontam a redução das taxas de juros cobradas pelos bancos. Vamos avaliar os argumentos, a posição do governo e apresentar propostas que possam contribuir com o debate.

Câmbio

A valorização do real chegou a tal ponto que é quase impossível competir com o produto estrangeiro. No Plano Real, para controlar a inflação, foi usada megataxa de juro com o propósito de atrair especuladores externos para valorizar a moeda. Com isso, formou-se a âncora cambial, com o real equivalendo a um dólar. Em valores de hoje, esse câmbio do Plano Real, considerando a inflação pelo IPCA, valeria R$ 2,60 por dólar e, pelo IGP-DI, R$ 3,60. O governo, no entanto, entende que o câmbio a R$ 1,80 por dólar está bom para preservar a competitividade industrial e teme que se for acima disso pode disparar processo inflacionário. Não creio.

Creio que a melhor forma de enfrentar o excesso de moeda externa é emitindo o correspondente em reais, ou seja, ampliando a base monetária. Isso não causará inflação, pois o controlador da inflação é externo ao país, nos preços estagnados ou cadentes dos bens e serviços internacionais em decorrência da crise. E isso poderá se estender por vários anos.

Taxa de juro

Na crise de 2008, o presidente Lula determinou aos bancos oficiais a redução das taxas de juros. Contrariando previsões do setor financeiro, ocorreu ampliação dos lucros do Banco do Brasil e da Caixa, em razão do aumento da clientela.

O governo finalmente adota essa estratégia contra os interesses dos bancos privados. O objetivo é ampliar o consumo e, com isso, fortalecer a indústria, que atenderá à maior parte do crescimento usando sua capacidade ociosa, sem necessidade de investimento. Com o aumento das vendas, crescem os lucros e a capacidade de expansão com novos investimentos. É o círculo virtuoso do crescimento.

O caminho para o fortalecimento industrial passa pelo crescimento, que poderá ocorrer com a redução das taxas de juros bancárias, que deve ser imposta aos bancos, e com o câmbio pouco acima de R$ 2,00, via emissão monetária. Vamos acompanhar.

Amir Khair é mestre em Finanças