Os generais, no governo Goulart, tinham pressa. E uma certeza: se não tomassem a iniciativa, o presidente e seu cunhado, Leonel Brizola, dariam um golpe. Não importava que fosse uma fantasia, acreditavam nisso. Para eles, a situação chegara a uma etapa essencialmente militar. Uma voz determinada, segura, no entanto, advertiu-os, quase ordenou, “tenham calma”:

– Ainda falta muito por fazer. Falta organizar detalhes, garantir posições na opinião pública, trabalhar as reações do povo.

– É necessário inculcar no povo a ideia de que irá perder tudo o que acumulou na vida: a propriedade privada, a guarda e a educação dos filhos, a crença em Jesus Cristo e em Deus, a liberdade de pensar e agir. Tudo, tudo! Até os liquidificadores e automóveis que, a partir de 1959-1960, começam a incorporar-se ao patrimônio doméstico dos brasileiros.

Os generais o ouviam.

Definiu a estratégia da caminhada em direção ao golpe:

– Deve-se criar a sensação de medo. Há que se criar o medo!

O medo deveria passar a ser um protagonista essencial. Estabelecida a sensação de medo, o resto vem por si próprio. Na Itália, adido militar antes de chegar ao Brasil, incutiu o medo nos militares italianos – medo ao comunismo. O medo faz parte de qualquer estratégia de dominação militar. Com ele, se ganha a guerra antes de a batalha começar. Isso era repetido por Arma a cada minuto.

Nosso personagem, um americano, era conhecido assim, Arma. Nada mais apropriado, vamos ver. A vinda de Arma para o Brasil foi definida na famosa reunião de 30 de julho de 1962, no Salão Oval da Casa Branca entre o presidente John Kennedy, o subsecretário de Estado para Assuntos Interamericanos, Richard Goodwin, o assessor presidencial de Segurança Nacional, McGeorge Bundy, e o embaixador americano no Brasil, Lincoln Gordon. Flávio Tavares relata detalhadamente a reunião no livro 1964: o golpe no capítulo “Washington no Jogo”.

Um encontro histórico. Decide-se ali a deposição de Goulart. Durou quase duas horas, apenas isso: das 10h55 às 12h55. Quem quiser conferir, procure o livro. Da reunião, extraio apenas o momento em que se decide pela vinda de Arma ao Brasil como adido militar, homem talhado para a preparação do golpe, ao lado do embaixador Lincoln Gordon.

Amigo dos generais brasileiros, convivera com vários deles na Itália, na Segunda Guerra Mundial. Oficial de ligação entre a Força Expedicionária Brasileira (FEB) e o V Exército dos EUA entre 1943 e 1945. Intérprete de Eisenhower quando da visita do então presidente americano ao Brasil, em 1960. Antes, assistente do adido militar na Embaixada dos EUA, no Rio de Janeiro, de 1945 a 1948. Falava português fluentemente.

Convidado, largou o cargo de adido em Roma e tomou o rumo do Brasil. Quer coisa melhor do que preparar um golpe em favor de seu país? O leitor talvez já esteja incomodado. Resolva-se o incômodo. Arma é Vernon Walters, coronel quando chega ao Brasil, com imenso prestígio na entourage do poder nos EUA. Ficou conhecido assim desde outubro de 1962, quando chega ao Brasil.

O próprio embaixador Lincoln Gordon o chamava assim nos relatórios enviados diariamente a Washington – uma simplificação de Army Attache, adido militar. Não usasse uniforme, não usasse paletó e gravata quando em trajes civis, o homenzarrão de quase dois metros passaria por um camponês das regiões alemãs de Santa Catarina ou do Rio Grande do Sul – assim o define Flávio Tavares.

Releituras recentes em torno do golpe de 1964 me despertaram o interesse sobre ele. Figura central do golpe, uma das mais importantes. Peça chave da Agência Central de Inteligência dos EUA (CIA) em toda a operação golpista de 1964. Merece ser lembrado para evidenciar como nada aconteceu por acaso e para evidenciar como os EUA têm agentes preparados para derrubar governos quando não estejam de acordo com seus interesses.

Arma ficou impressionado quando desembarcou no Aeroporto Internacional do Galeão, no Rio de Janeiro, em meados de outubro de 1962. Era coronel, então. Não esperava, não mesmo, ser recebido por treze generais brasileiros, saudado por palmas entusiasmadas. Não precisava tanto. Viera às pressas, nem desocupara direito o apartamento em Roma, deixando a tarefa a cargo da mãe, com quem morava. Atordoado e feliz. Em casa.

Conhecia das armas, mas fazia questão de utilizar a inteligência. A astúcia abate mais inimigos do que um canhão – tinha consciência disso, Flávio Tavares anota. Luiz Alberto Moniz Bandeira, no seu O Governo Goulart: As lutas sociais no Brasil, 1961-1964, fala de um encontro com ele, quando ele ocupava o cargo de embaixador em Bonn. Pesquisava a reunificação da Alemanha e como ele previra em maio de 1989 a derrubada do Muro de Berlim, precisava ouvi-lo. Chegou com a ideia de indagar também sobre o golpe de 1964, mas desistiu logo no início da conversa, iniciada por ele de modo bem-humorado:

– Depois que vim para a Alemanha, o Muro de Berlim foi derrubado. Agora vão dizer que sou o responsável. Pois é, eu fui acusado de ser artesão da derrubada do rei Farouk, no Egito, do presidente Arturo Frondizi, na Argentina, do presidente João Goulart, no Brasil, e do presidente Charles de Gaulle, na França. Mas ninguém até agora provou nada contra mim.

De alguma forma, ele se desnudava, brincando.

Moniz Bandeira reagiu também com bom humor:

– Sim, embaixador, o senhor é um homem de inteligência e sabe que conspiração dificilmente se faz com documentos.

Entre tantas atribuições ao longo da vida, Arma foi agente da Defense Intelligence Agency (DIA) e vice-diretor da CIA. Nunca admitiu ter participação direta no golpe de 1964. Não negava, no entanto, ter sido bem informado sobre os planos para a derrubada de Goulart. Um disfarce quase ingênuo, acolhido apenas por quem não o conhecesse.

Como vimos, insistiu na consolidação da atmosfera do medo, para ele um aliado fundamental para a criação do clima favorável ao golpe. O medo pouco a pouco, desde a chegada dele, no final de 1962, começou também a chegar às unidades militares, apavoradas com a possibilidade do comunismo, como queria Arma, e ele agia para isso.

Mantinha reuniões diárias de articulação do golpe com o general Castello Branco, com quem fizera amizade na Itália. A intimidade com Castello Branco permitiu pudesse assistir pela televisão o comício da Central do Brasil, no dia 13 de março, no apartamento do general, em Ipanema. Como sabemos, o golpe ocorreria dali a menos de 20 dias.

Propagar o medo e armar-se – era a orientação de Arma.

Os golpistas armaram fazendeiros, treinaram pessoas por todo o país, formaram milícias, temiam uma reação armada da oposição. Admitiam até uma secessão por algum tempo, liderada por Minas Gerais. A reação armada da esquerda não ocorreu, como se sabe. A direita estava preparada. Para uma luta demorada, que armada fosse. A esquerda, não.

O Serviço Federal de Informações e Contra-Informações (SFICI), órgão do Conselho de Segurança Nacional, informou ao presidente Goulart sobre a atividade de Arma como coordenador das operações da CIA no Brasil, envolvido diretamente no contrabando de armas para a contrarrevolução.

O SFICI, para ser justo, municiou Goulart de muitas informações sobre as movimentações golpistas, mas o presidente dizia não querer fomentar a “indústria do medo”, em pleno desenvolvimento, e nem provocar pânico, já semi-instalado, de modo especial nas camadas médias. Lincoln Gordon era a face pública da articulação golpista. Arma, o operador. Aliado na formulação ideológica, e figura central na articulação militar, com amplos poderes para tanto.

Mantinha um olho no padre, outro na missa.  Não desgrudava de Castello Branco, principal articulador do golpe. Com ele, discutia cada passo a ser dado, embora, como homem de inteligência, jamais tenha admitido isso. Não descuidava, no entanto, dos generais considerados de esquerda do chamado dispositivo de Goulart. Até com o general Euriclydes Zerbini conversou, declaradamente de esquerda. Um agente da CIA de extrema qualificação. Abrir o jogo, jamais.

No final de 1963, o golpe assumia contornos de urgência para os EUA, e Arma apertava o passo. Goulart parecia disposto a levar à frente suas reformas de base, medidas de natureza democrática, como a reforma agrária. Aos EUA, no entanto, pareciam coisa de comunista. Além disso, Kennedy havia sido assassinado em novembro daquele ano. Lyndon Johnson assume, e os radicais da Guerra Fria ganham ainda mais espaço. Os falcões passam a nadar de braçada. Arma, mais à vontade. Tudo ficou mais fácil, como ele admite.

O início de janeiro de 1964 não era promissor para o presidente Goulart. Ele, de um lado, sentia o movimento golpista se acelerar. De outro, pretendia ousar, apressar as reformas de base. É alertado no dia 1º de janeiro de 1964: era necessário fazer um pronunciamento favorável à Aliança para o Progresso de modo a evitar a declaração de bancarrota do Brasil, medida prestes a ser tomada pelos EUA, como lhe dizia San Tiago Dantas. Goulart reagiu desanimado:

– Já não adianta mais, professor. Não acredito que nenhuma frase minha detenha a conspirata que os EUA patrocinam.

Lançou mão de uma pasta, abriu-a, mostrou alguns informes do serviço secreto. Contou que o general Ray E. Bell chegara ao Brasil numa fortaleza voadora, e fora recebido pelo brigadeiro Eduardo Gomes, um dos mais notórios golpistas:

– Esse general esteve com o general Castello Branco e até mesmo o meu ministro da Guerra o visitou.

Goulart perdera qualquer ilusão de compromissos com os EUA e resolvera chamar o povo à luta, talvez tardiamente, talvez numa correlação de forças já favorável aos golpistas. Havia advertido a trabalhadores reunidos em Itaguaí, no Rio de Janeiro: a caminhada não seria macia, a estrada seria árdua, haveria sacrifícios. Mais talvez do que ele imaginava. Ele, se caísse, cairia de pé, na batalha pelas reformas de base.

Arma aumentava o ritmo no início de 1964. Reunia-se com os generais Golbery do Couto e Silva, Ayrton Salgueiro de Freitas, Hugo Bethlem, Cordeiro de Farias, Juraci Magalhães, Nelson de Melo, e com o brigadeiro Eduardo Gomes. Viajava frequentemente a Belo Horizonte, epicentro do golpe, e reunia-se com o governador Magalhães Pinto e com o general Carlos Luís Guedes, comandante da 4ª Divisão de Infantaria, homem de confiança do marechal Odylio Denys. Tudo era do conhecimento de Goulart. Relatórios constantes do seu serviço de informações, o SFCI, o subsidiavam. A contrarrevolução avançava, inexoravelmente, Arma à frente. Chegou a oferecer armas ao general Carlos Luís Guedes, e a instigá-lo para não perder mais tempo:

– Eles estão partindo o presunto em fatias tão finas que se torna imperceptível a sua ação. Quando os senhores se derem conta, o terão comido todo.

Como diz Moniz Bandeira, quem cortava o presunto em fatias finíssimas era Arma, era a CIA. Por meio de manobras sutis, assinou-se no final de janeiro de 1964 o acordo de renovação do Acordo Militar de 1952 com os EUA. Washington tinha em mãos agora um instrumento legal para a intervenção armada no Brasil na hipótese de resistência ao golpe de Estado em andamento. Tudo de acordo com o figurino.

A CIA, sob a direção de Arma, combinava modalidades de covert action [ação oculta] com spoiling action [ação de desgaste], e desenvolvia a atmosfera do medo, fazia a crise recrudescer, induzindo o país à radicalização, criando as condições para a intervenção das Forças Armadas. Nas passeatas, como previsto por Arma, os cartazes não se dirigiam contra o presidente, nem contra as reformas de base. Todos, como dirá mais tarde o próprio Goulart, “visavam a atingir o sentimento profundamente religioso do povo e mostrar o perigo iminente da tomada do poder pelos comunistas”. Se hoje isso funciona, imagine em tempos de Guerra Fria.

A CIA ditava a cadência da campanha para a derrubada de Goulart. Manejava os cordéis, mas o fazia discretamente, não queria de modo nenhum aparecer na linha de frente, Washington não pretendia isso. A CIA e Washington tinham ainda ao seu lado, de modo incondicional, a imprensa, cuja esmagadora maioria era conservadora, de direita, capaz de constituir uma rede favorável ao golpe, como registra Aloysio Castelo de Carvalho em seu livro A Rede da Democracia – O Globo, O Jornal, Jornal do Brasil na queda do governo Goulart (1961-1964), entre tantas outras publicações.

No dia 19 de março de 1964, seis dias após o comício da Central do Brasil, acontece uma passeata em São Paulo, a chamada Marcha da Família com Deus pela Liberdade. Para os golpistas, ela excedeu as mais otimistas previsões. Na hipótese pessimista, 300 mil pessoas. Na otimista, 500 mil. A embaixada americana exultou, ao informar o Departamento de Estado. Manifestação de classe média e dos mais ricos, dos poderosos. Golpe nas ruas.

Ainda assim, os golpistas, Castello Branco, à frente, precisavam de um pretexto para adiantar o passo. Veio com uma iniciativa da CIA. O cabo Anselmo, desde lá identificado como um agente da agência norte-americana, e provavelmente articulado com Arma, liderou na Semana Santa, uma rebelião de marinheiros, e deu aos golpistas a certeza de que era a hora.

Castello Branco e Arma preparavam o golpe nos detalhes, e imaginaram tudo ser iniciado entre 2 e 3 de abril. Mas Minas Gerais se antecipou. Seria dia 30. Arma foi informado dessa antecipação. O governador Magalhães Pinto mandou requisitar todo o estoque de gasolina. Afonso Arinos de Melo Franco, nomeado chanceler, e encarregado de negociar o estado de beligerância de Minas Gerais para justificar a ajuda dos EUA, com o fornecimento de petróleo e material bélico, conforme acertado entre o general Carlos Luiz Guedes e Arma. O cônsul norte-americano em Belo Horizonte, Herbert Okun, esteve com o governador Magalhães Pinto para reiterar-lhe o apoio dos EUA – ofereceu-lhe ouro, incenso e mirra: dinheiro, armas, munições e alimentos.

O general Olympio Mourão Filho partiu com a tropa para o Rio de Janeiro no dia 31 de março – golpe em marcha. O governo de Washington acionou a Operação Brother Sam, uma impressionante força-tarefa destinada a intervir a favor do golpe, se necessário. O golpe aconteceu, sem reações significativas, prisões por todo o país e mais de 20 anos de arbítrio e terror.

Luiz Alberto Moniz Bandeira manifesta sua opinião:

– E o general Humberto Castello Branco, o amigo de Vernon Walters, emergiu da sombra como candidato do governo invisível, a CIA, à Presidência da República, levando ao poder a UDN e os oficiais da Cruzada Democrática, cujos desígnios ditatoriais o suicídio de Vargas, ao acender a fúria popular em 1954, retardou por dez anos.

Os EUA jamais estiveram alheios à América Latina desde que se tornaram um Império. Não há golpes no continente sem as mãos deles. Ontem como hoje, agem na defesa de seus interesses, de um jeito ou de outro, e a CIA, sempre fundamental. Na história de Arma, há hoje documentos a granel. Para os acontecimentos atuais, afora as evidências gritantes, ainda é preciso aguardar algum tempo, quando os arquivos forem legalmente abertos.

Arma só foi promovido a general depois do golpe de 1964. Nasceu em 1917. Morreu em 2002.

Referências

BANDEIRA, Luiz Alberto Moniz. O Governo João Goulart: as lutas sociais no Brasil, 1961-1964. Rio de Janeiro: Revan; Brasília, DF: EdUNB, 2001.

CARVALHO, Aloysio Castelo de Carvalho. A Rede da Democracia: O Globo, O Jornal e Jornal do Brasil na queda do governo Goulart (1961-64). Niterói: Editora da UFF, Editora NitPress, 2010.

TAVARES, Flávio. 1964: o golpe. Porto Alegre, RS: L&PM, 2014.

 

 

 

 

Emiliano José é jornalista e escritor, autor de Lamarca: O Capitão da Guerrilha com Oldack de Miranda, Carlos Marighella: O Inimigo Número Um da Ditadura Militar, Waldir Pires – Biografia (v. I), entre outros